sábado, 29 de janeiro de 2011

«cinza / na fria luz de janeiro»

Hoje, conseguindo finalmente algum tempo para mim, tomo consciência de que o fascínio  de que falo na mensagem de ontem está também (e ao mesmo tempo) na concretização, na voz que canta e a que desejo unir a minha, silenciosa, deste anseio que não me abandona de dizer o que assim escuto dito, na certeza de que nada nem ninguém me poderá separar do amor d' Aquele a quem as digo, no mais fundo de mim, mesmo quando a ligação não acontece, como há já tanto tempo parece ser o caso.

Quem, senão Ele, traz até mim este poema? Quem, senão Ele, me pode falar desse «caderno azul» (e  de quanto nele guardei) que «soçobrou ao cair da tarde»?  Quem senão Ele me pode dar a ver, em tão poderosas imagens, o que se me afigura marcar, no plano da viagem, o fim de um ciclo e o início de outro?  Escuto-O neste «outro» que assim se desdobra num eu que fala e num eu que escuta, eu este que me sinto movida a plenamente protagonizar:
«um raio vindo da planície / tomou-o por dentro / e as palavras com que falavas a deus / essas linhas de amor esquecido / são agora cinza / na fria luz de janeiro».