sexta-feira, 10 de junho de 2011

de novo a questão da linguagem

colhido aqui
A questão da linguagem (que é também a do pensamento verbal) coloca-se sempre que está em causa uma ordem de realidade que (e é já um lugar comum dizê-lo) extravasa as coordenadas de espaço e de tempo que nos confinam. Quando tento falar de «corpo espiritual» (já nem falo de «corpo glorioso»), sinto-me uma larva de libélula que pretendesse discorrer sobre o modo de ser do insecto perfeito que pressente em si, mas que nunca viu e só saberá o que é no dia em que rastejar para fora de água e passar além da película luminosa que separa o meio aquático do meio aéreo, além da qual nada vê. A inversa não é verdadeira...de fora, se a água for límpida, a libélula pode continuar a ver as larvas/ninfas que a viram partir sem regresso.

Seja qual for a linguagem que escolha para tratar um tema desta ordem, será sempre metafórica ainda que a disfarce de filosófica ou científica. É por isso que , sem deixar de explicitar esta reserva, opto pela linguagem religiosa (naturalmente aquela com que estou familiarizada). Proporciona-me não só palavras, mas também imagens e «cenas», que funcionam como constituintes maiores, combináveis, tal como as frases no texto, por relações lógico-semânticas. É óbvio que, tal como há diferentes graus de domínio de uma língua natural, também os há no que toca às linguagens, muito especialmente esta. O reconhecimento da sua essência simbólica é crucial no seu uso, do «elementar» ao «avançado».

Cada vez tomo mais clara consciência de que me cinjo aos textos evangélicos e assumo um distanciamento crítico relativamente à chamada «tradição da Igreja» (textos conciliares e obras dos «Padres da Igreja»). Se há tanta coisa a que se me cerram as portas do coração! Tanta coisa que me parece distorcer a Sua Palavra nos testemunhos mais directos e próximos. Tanta coisa que se reduz a interpretações,  impostas todavia ao longo dos séculos como verdades inquestionáveis. 
Ser cristã é simplesmente amar Jesus, como Maria ou como Marta.